Um desabafo e José Régio

Ufa! Voltei!!!!! E voltei cheia de coisas para falar. Por isso esse post, por se tratar de um post pessoal e um pouco sacal (pois nossos problemas e reflexões apenas interessam a nós mesmos, trust me) não precisa ser lido de caaaabo a rabo. É apenas um restart. E vou tentar organizar meus pensamentos (ixi!) pra tentar me fazer entender.

O fato é que de tempos em tempos me bate uma inquietude. E logo eu, que sempre me achei tão avessa à mudanças, vejo que preciso mais delas do que parece. Convivo com isso desde sempre. E minhas mudanças vão além de mudar um corte de cabelo ou começar um regime. É simplesmente uma inquietude. Uma vontade de mexer com as energias. Com algo que não se vê. Não significa que eu esteja infeliz ou insatisfeita, pelo contrário, alguém um dia me falou muito sabiamente que nos acostumamos a confundir a felicidade com euforia e há algum tempo eu consegui passar dessa fase e a calmaria (relativa) passou a ser o maior dos objetivos.

O fato é, que conforme vamos envelhecendo (tá eu sei, eu não sou velha e bla bla bla) vamos perdendo a capacidade de nos reinventar. Por que? Na minha opinião, por diversos fatores: as obrigações exigem demais, e quanto mais velhos, mais compromissados à elas nos tornamos. É a tal responsabilidade. Coisas que antes não eram prioridades na sua vida, começam a ter um valor inestimável, e muitas vezes inalcansável. Com o tempo você para de contestar para se conformar. E ainda chama isso de amadurecimento. O “tenho que” vira verdade absoluta: “tenho que estudar” “tenho que trabalhar” “tenho que ganhar diheiro” “tenho que estar bonita” “tenho que ler o livro do momento” “tenho que arrumar tempo pra um happy hour com os amigos de tempos” tenho que, tenho que, tenho que… Até o momento que você “tem tanto que” que acaba ficando sem nada para falar, apenas para fazer. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo aqui no blog…

De fato é um pouco assustador. No que antes você escrevia tudo que vinha na telha, agora você pensa 2 vezes afinal você “tem que” escrever direito e agir direito porque isso pode ajudar ou prejudicar sua profissão e bla bla bla.

Não. Não estou pirando e muito menos pretendo surtar e jogar tudo pro alto. Gosto da pessoa que me tornei, por enquanto. Mas sendo que me tornei alguém que eu gosto (ufa!demorou…), com um pouco mais de maturidade e segurança, acho que preciso resgatar algumas coisas que me faziam bem e eu deixei para trás. E não são coisas materiais. São sentimentos. Vontades. A tal energia que falei. Deixar as coisas um pouco menos óbvias. Tirar da jaula, apenas um pouquinho, a anarquista inconformada que sempre existiu em mim. Ter algo a dizer, algo a mostrar porque, como disse antes, a vida vai calando a nossa boca de tal forma que uma hora não conseguimos mais falar.

Pois é. Volto a bater numa tecla que achava que tinha superado: é por isso que o teatro me faz tanta falta, e quem me conhece há tempos sabe. Ficar comigo, ser eu, e apenas eu, por muito tempo não dá certo. Preciso ser outra pessoa, pelo menos por meia hora. Alivia. (o que não quer dizer que eu tenha múltiplas personalidades, calma!)

Enfim, é isso. Somos tão cobrados a sermos pessoas melhores que não nos permitimos ser um pouquinho pior nem por um minuto. E já que falei tanto de mim, e abri esse meu coraçãozinho muitas vezes peludo (tudo fingimento!) preciso postar aqui um cântico, que parece que foi escrito para mim (hum, metida…) e é assustador como me descreve da forma que eu me vejo. Novamente, quem me conhece há tempos, já conhece essa e provavelmente vai pensar “pronto, lá vem ela…”

Cântico negro

José Régio


“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

That’s it!

Obrigada compartilharem esse pequeno desabafo.

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