Carta ao sr. Truman Capote

Sr. Truman Capote,

O senhor não me conhece mas somos colegas de profissão em épocas diferentes. Aliás, quando eu estava chegando no mundo, o senhor estava partindo e por isso agora senti essa necessidade de compartilhar como o senhor teria material jornalístico para as suas obras nos tempos atuais. Não vou falar sobre as mazelas e absurdos do mundo, os atentados terroristas, o estupro de uma violência sem igual na Índia ou outras coisas. Prefiro me atentar ao eixo Rio-São Paulo, aqui no Brasil.

Se fosse hoje, senhor Truman, apenas com as notícias de um mês seria possível ter material para mais uma dezena de “A Sangue Frio”, só que eu sugeriria alterar o nome para “Banho de Sangue”. Aliás, eu gostaria de investir no projeto e quem sabe ter o aval do senhor. Eu poderia escrever sobre o menino estudante baleado na porta de casa, bem assim, a sangue frio. Assim como no caso dos Clutter, não houve reação por parte do rapaz, ele apenas entregou o “objeto de desejo” mas ainda assim não foi poupado.

Outro dia, também aqui em São Paulo, um rapaz atropelou um outro rapaz arrancando-lhe o braço e deixando a vitima sangrar em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. O que arrancou o braço, ficou com o membro no carro e achou que seria ideal se livrar dele em um córrego, mesmo que ele ainda pudesse ser implantado no rapaz atropelado. Imagina o que seria Sr. Truman, poder entrevistar e entender a mente do atropelador? Um material e tanto.

E teve um casal no Rio, que ficou refém de bandidos por 6 horas dentro de uma van pública, enquanto ela era estuprada em rodízio pelos 3 rapazes, o namorado era espancado por uma barra de ferro. Mas eles não morreram, então não sei o quão útil poderia ser esse material. De repente se traçarmos uma narrativa também com o depoimento das vítimas, podemos conseguir algo interessante.

Eu confesso que estou um pouco perdida nos casos Sr. Truman, porque são tantos que a vida útil dos holofotes de cada é em média 1 semana até ele ser  substituído por um outro ainda pior. Hoje mesmo, na madrugada, um rapaz que foi baleado no carro enquanto ia com a irmã comer um sanduíche. Ele ainda não morreu, mas está quase lá, então pode ser que cause uma comoção maior.

Agora vou te falar, tenho 2 casos que acredito que o senhor vá me dar o aval para fazer o próximo “A Sangue Frio”: uma manicure seqüestrou o filho de 6 anos da cliente. Pegou o menino na escola, matou e até agora ninguém entendeu direito por que. Hein? Que tal? Nem a policia sabe o por que, quem sabe eu consiga tirar isso dela em algumas entrevistas. O outro foi ainda ontem: os bandidos foram assaltar uma dentista e ao verem que ela só tinha 30 reais na conta bancária (e isso é menos que os 40 dólares dos Clutter em 1959) atearam fogo nela.

E então, o que o senhor acha? Sobre o desfecho estou em dúvida e vou tentar explicar por que: aqui, nenhum dos bandidos que cometeu os atos acima, será condenado à pena de morte como aconteceu com Richard Hickock e Perry Smith. Aliás, me arrisco a dizer que a maioria deles, se não está solto, estará em breve andando por aí. Isso pode facilitar o meu trabalho durante as entrevistas mas pode ser um pouco difícil encontrá-los. Por um lado, acho que isso daria um ar ainda mais genial ao meu “Banho de Sangue”, pois causaria a revolta nos leitores e até um certo receio, já que com tipos como esses a solta, eles podem ser a próxima vítima. Mas não sei se de repente o não enforcamento dos bandidos, dará a comoção final que a obra pede.

Por favor senhor Truman, gostaria muito da sua opinião sobre a minha ideia. Mas por favor me avise o quanto antes, pois também estou com a ideia de roteirizar esses casos e enviar para um diretor de cinema chamado Quentin Tarantino. O senhor não deve conhecer, mas ele é ótimo, acredite.

Sua colega,

Antônia Futuro Bergamo

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3 comentários sobre “Carta ao sr. Truman Capote

  1. Comentário claro e direto. No Brasil temos muitas leis, mas não são cumpridas pelas instituições dos três poderes e pelo STF e demais entidades judiciárias. pois, são falidas Tudo aqui é clientelismo, corporativismo, corrupção e um ditadura aparente. O pior de tudo é que não há povo nacionalista. Como disse Charles de Gaulle: O Brasil é um país de faz de conta e ainda está muito longe de ser uma nação. É ainda um paizinho da América do Sul.

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