“Que mundo é esse” ou “O incrível mundo onde as vítimas pedem desculpas”

Em menos de 20 minutos li duas notícias chocantes sobre a violência sexual contra a mulher. Uma relatava a situação vergonhosa dos chamados capacetes azuis em missão no Haiti, trocando produtos como remédio e comida e outros itens básicos de sobrevivência por sexo com as mulheres locais. A outra, bem mais próxima, relatava o assédio sofrido por uma adolescente de 16 anos por 3 homens aqui pertinho de casa. Caminho que eu fiz muitas vezes voltando do trabalho. Levantaram sua blusa, abusaram e o estupro só não se confirmou porque alguém passou e ela teve chance de correr. Os comentários estarrecidos são similares: “a que ponto chegamos”, “que mundo vivemos?” “Onde vamos parar?”, etc. A infeliz realidade é que os casos de abusos não são de hoje. Não são uma doença do mundo atual e sim uma doença que já deveria ter sido virada!

Abusos sexuais, estupros, assédios… Todos existem e assolam mulheres desde que o mundo é mundo. A única diferença é que com a quantidade de informação disponível atualmente, temos acesso a todos os casos que poderiam passar desconhecidos.

Nós somos casos desconhecidos. Eu sou. Sua amiga é. Sua mãe é. No mínimo elas já foram agarradas em alguma situação, cantadas nas ruas, tiveram seus braços puxados ou mãos bobas de desconhecidos em partes do seu corpo. No mínimo. No básico que até nós acabamos aceitando por achar normal sermos vistas como pedaços de carne à disposição.

“Que exagero!”.

Eu, até hoje, passei pelo chamado “mínimo”. Foram algumas passadas de mão sem consentimento (não dava nem para ver de onde vinha) nas matinês – ou seja, eu não era nem maior de idade – e na balada. Mas afinal, o que eu estava fazendo na balada não é mesmo, devia estar pedindo. Lembro que os meninos faziam corredores e pobre da menina que passasse por lá. Tomei até um susto maior quando estava em uma festa com banheiro unissex e ao entrar na cabine notei que um estranho tentava entrar comigo. Fiz um escândalo e ainda passei por louca por gritar na cabine do banheiro. Ufa! Bom comemorar, né?

Ainda assim eu penso nas roupas quando vou sair de casa sozinha. Me preocupo quando vejo desconhecidas com roupas “arriscadas” e isso não é um julgamento!!! Faço uma pequena oração para que nada aconteça e elas cheguem em casa em segurança. Evito sair de casa sozinha a noite e desde que tenho carro, há 1 ano, raramente andei na rua sozinha ou com meu filho por medo de tudo que pode acontecer. Me preocupo quando amigas vão sair com algum “caso” novo ou quando saem sozinhas. Quando descobri o sexo do meu segundo filho, confesso que respirei aliviada por não ser uma menina, não porque “meninas são mais chatinhas” ou qualquer bobagem que digam por aí, mas porque o mundo ainda é MUITO cruel com as mulheres. Agora tenho a missão de criar dois homens que sejam os melhores homens que eu conheço principalmente com relação aos outros.

Todas as minhas palavras podem parecer histéricas para uns e retrógradas para outros (tipo “que merda ela respirar aliviada por ter um menino), mas pedir desculpas seria agir como as vítimas geralmente agem: se desculpando pelo abuso do outro. Eu e a maioria das mulheres somos vítimas de séculos e séculos de uma cultura que desvaloriza a mulher, que ensina a ter medo, a se “comportar” ou qualquer coisa que o valha. Eu sinto que tenho muito machismo enraizado e leio essas notícias, compartilho e falo sobre o tema justamente para mexer nessa ferida que não gostamos de cutucar.

Sempre termino minhas reflexões pensando: “realmente, eu vivo protegida em um casulo”, mas como seria bom se nenhuma de nós precisasse de casulo…

(Infelizmente eu não tenho respostas que ajudem a combater essa cultura e mentalidade tão cruéis com as mulheres)

feminazi-porque-querer-que-seu-gnero-seja-respeitado-como-ser-humano-o-mesmo-que-invadir-a-polnia-60727

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