Você prefere menino ou menina?

Quando entramos no universo de pais e filhos ou quando engravidamos é que começamos a ver como “ainda somos o mesmo e vivemos como nossos pais”, e avós e, se duvidar, bisavós. Quando perguntam se você está esperando menino ou menina, geralmente em seguida vem um comentário sobre as preferências da pessoa. “Eu também quero ter meninos” ou “Nossa, dois meninos é legal, mas já pensou um casal, que máximo?” ou ainda, “Meu sonho é ter uma menininha. Você não sonha em ter uma menina?”.

Não vejo muito problema em ter preferências, o problema é quando a justificativa por preferir determinado sexo é algo tipo “Não quero ter filha. Deve ser muito preocupante porque além de toda a violência, temos que nos preocupar com assédio e estupro” ou “Deus me livre ter filho homem, já pensou se ele ‘vira viado’?” (essa em especial eu já ouvi de uma pessoa que tinha uma filhA e me passou pela cabeça perguntar se o preconceito era geral ou se tudo bem se a filha dele “virasse lésbica”).

Fico refletindo se é uma utopia pensar se, ao invés de nos preocuparmos em não termos filhas porque elas podem ser estupradas – preocupação totalmente plausível e válida – nos preocuparmos em criar um mundo livre da cultura do estupro e do assédio, porque não vemos mais nossas meninas como objetos, porque há, acima de tudo, respeito pelo corpo e o espaço do outro seja homem ou mulher.

“Imagina, você está louca, ninguém aqui concorda com isso e é óbvio que se dependesse de mim não haveria estupros e assédios”. Acredito. Mas será que não podemos fazer um pouco mais de esforço? Será que estamos criando nossos meninos e meninas com essa preocupação como uma das prioridades ou ensinamos e estimulamos nossos “grandes líderes” (porque só o que vejo são pais vislumbrando seus filhos como futuros grandes líderes) desde pequenos a abraçarem e beijarem as menininhas porque é bonitinho?

Ao invés de nos preocuparmos se nossos filhos homens vão “virar viados”, não seria melhor no empenharmos em criar um mundo onde haja respeito mútuo e a pessoa não seja julgada pela sua sexualidade? “Claro, eu não sou homofóbico, não gosto mas respeito, eles lá e eu cá”. Acredito que você nunca tenha batido ou agredido alguém por causa da sexualidade, mas será que a mensagem que isso é errado chega clara para os seus filhos ou será que do conceito “não gosto mas respeito” eles só captaram o “não gosto”?

Tenho um menino e estou “fabricando” outro. Confesso que com meu machismo enraizado que luto contra todos os dias, por um momento respirei aliviada quando soube que eram meninos simplesmente porque sei como o mundo pode ser cruel com uma mulher. Hoje, já acho que a responsabilidade é ainda maior: tenho a missão de criar dois homens de boa índole e caráter incorruptível, que ajudem a construir esse mundo utópico que sonhei para eles.

meninooumenina

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