Uma palavrinha sobre o pós-parto

Eu leio e converso muito sobre parto. Tenho minhas ressalvas pessoais sobre a cesárea (já passei por uma), o parto normal, o humanizado, enfim… Esse post não é sobre isso e sim sobre o pós-parto. “Ah, o baby blues, ou quando vamos para casa com o bebê”. Não, espera, volta um pouco.

Você passa 9 meses fabricando um ser humano, seu corpo tem entre 36 e 42 semanas para se adaptar a essas mudanças e mesmo assim nem sempre foi fácil (aliás, eu que tive gestações consideradas “tranquilas” não acho que seja e nem deva ser considerado um trabalho fácil). E então chega o dia mais importante e especial da sua vida. É normal ter medo da dor, dos procedimentos, do desconhecido e isso não pode ser desvalorizado. Não chego nem a profundidade de me referir aos abusos e violência obstétrica, mas sobre “normalizar” toda a questão a ponto de constranger o sofrimento da mãe.

Geralmente trabalhamos com nosso pensamento, nosso cérebro. As batalhas diárias são emocionais e não corporais. Nesse dia é claro que mente e corpo estão conectados mas no fim do dia quem faz o trabalho é o corpo, até no caso de uma cesárea, e nesse sentido não existe caminho fácil. Se o pré foi fácil, provavelmente o pós não será. Se o pós é fácil, possivelmente o pré não foi. Há muitos casos em que nem o pré nem o pós são fáceis e nem deveriam.

Tirando EU, raramente escuto uma amiga ou conhecida que passou por cesárea nos últimos anos falar sobre a recuperação (e olha que elas são 95% do meu convívio social). Talvez elas realmente não tenham sentido nada, tenham sentido pouco ou talvez tenham tido desde o começo alguém ao lado dizendo “Ela já está ótima, não está andando curvada nem nada, quase nem sente dor”. Eu mesma ouvi tanto isso na vida que quando tive meu filho me forcei a andar reta mesmo com uma dor do caramba só para não me sentir uma fracassada.

Você se prepara, sente dor, dispõe do seu corpo, entrega a maior obra de arte da sua vida para o mundo, passa por anestesias (ou não), procedimentos e ainda tem que fazer com que tudo aquilo pareça muito simples. Cheguei no quarto com um lençol enrolado entre as pernas, camisola de hospital, inchada, os peitos enormes enchendo de leite, sonda e sangue e logo trataram de escovar meus dentes porque estava com “bafo por causa do jejum” e me passar maquiagem (pedido meu, claro). Ainda assim tive que ouvir que estava amarela, se aquilo era normal. Comentavam que eu já estava quase sem barriga, que maravilha! Entendam: na hora eu estava em êxtase por ter tido meu filho, estava feliz com tantas pessoas queridas ali,  queria que meu corpo refletisse que eu estava feliz e realizada e forcei ele a isso.

Veja bem, não estou falando mal da cesárea até porque não tive outro tipo de parto e não posso glamourizar algo que não conheço. Ainda assim, poderia ter tido o parto de ponta cabeça, acredito que o sentimento e o desfecho seriam o mesmo.

Mulheres, no pós-parto acolham seu bebê e seu corpo. Respeitem as mudanças, a dor, os hormônios e não deixem que ninguém diga o que é o não normal e que a filha da vizinha da prima parecia a princesa Kate ao ter filhos. Não deixem que julguem a escolha do parto e nem que façam perguntas sobre se “cortaram” ou não suas partes íntimas. Não saiam da maternidade fazendo dieta para emagrecer e nem queiram voltar para a academia 1 mês depois do parto. Não pensem em plástica nos seios. Não se preocupem com a cicatriz da cesárea (e sim com a recuperação) ou se sua vagina estará “apertada” o suficiente para o seu “homem”. NESSE MOMENTO foda-se a maquiagem, o cabelo, as unhas. O que importa é você, seu corpo e o seu bebê.

Aos poucos tudo vai voltando ao normal e pode ficar ainda melhor, e no tempo certo seu corpo e sua felicidade irão SIM refletir para o mundo.

2013-05-31 19.37.59

Texto originalmente postado no blog Colcha de Retalhos

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Um comentário sobre “Uma palavrinha sobre o pós-parto

  1. Pingback: A volta do #ProjetoDesembaranga | Conselho de Amiga!

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