Eu mereço?

Esses dias eu fiquei nervosa. Muito desse nervoso tem a ver com a famigerada TPM. Comprei calmantes fitoterápicos, tipo Maracujina, para dar conta dos meninos sem engolir eles como um Bergen do filme Trolls. Não funcionou. Foi uma semana desgastante sem que nada de extraordinário estivesse acontecendo.

Ainda sob efeito da intensa semana, que inclusive começou com os meninos doentinhos e sem dormir direito, me peguei procurando ajuda profissional. “Vou logo pro psiquiatra, porque meu caso é de remédio”. Não tenho nada contra ajuda profissional, inclusive estava procurando uma. Mas então parei, e fiz o que sempre faço quando tenho esse intenso encontro comigo mesma: escrevi. Não esse post, escrevi aleatoriamente até chegar a uma conclusão.

Já escrevi e vivo lendo textos sobre como nós, mães, temos que nos absolver de culpas e neuras. Isso é bom, é um exercício de sanidade, mas e se dermos atenção para esses chamados de vez em quando? Talvez eu estivesse dando muita voz ao meu lado egoísta, querendo que meu bebê tivesse o ritmo do mais velho. Querendo que o mais velho, que não tem nem 4 anos, tivesse o ritmo de um adulto.

“Eu mereço” é uma premissa arriscada. Se você começa a utilizá-la frequentemente, você corre riscos de só merecer a si mesmo e mais ninguém.

“Agora não quero filho me incomodando, quero ficar em paz, eu mereço”.

E deixa os filhos cada vez mais de lado.

“Eu mereço”.

E um dia deixa pular o jantar porque eles estão bem e você está muito cansada, ou vai deixando cada vez mais com a babá, ou com os avós, porque você está trabalhando demais e o pouco tempo que tem quer ficar em paz, quer encontrar os amigos.

“Eu mereço”

Porque eu sustento essa casa e não quero criança me chateando quando eu chego.

“Eu mereço”

Porque tem dias que não quero ser mãe mas não tem um dia que eles não queiram ser filhos

“Eu mereço”

E quando você vê, nem lembra por que teve filhos ou o que imaginava quando eles ainda não existiam.

Você merece, você merece muita coisa, assim como seus filhos.

Se mereça com eles, preste atenção quando te chamam, acalma o seu coração porque eles não merecem a falta de equilíbrio por um egoísmo que não estão acostumados já que para eles tudo se resume a afeto e amor.

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Somos caretas

Quem me conhece há tempos sabe que mudei muito nos últimos anos, mas que o errado, o do contra, o questionamento, sempre fizeram parte da minha essência. Costumo dizer que dentro de mim mora uma punk na sua mais crua definição, alguém que adora quebrar as coisas para ver como elas são por dentro.  

Hoje me deu um nó. Um nó na garganta por ver que problematizam tantas coisas, tantas coisas bobas como uma brincadeira entre mães nas redes sociais. Esse nó já vêm crescendo há tempos, por pensar 30 vezes antes de publicar uma coisa simplesmente porque muitas das pessoas que estão ali não me conhecem a fundo para saber que é a fanfarrona que está ali. Que não, eu não levo as redes sociais tão a sério. 

Daí senti uma nostalgia de algo que não sei se vivi. Do subversivo. Do errado. De ver fotos de gente bêbada nas redes sociais. De gente gorda. De gente feia. De uma receita de doce que deu errado. De um lugar feio. 

“Antônia, peraí. Você ficou irritada porque as pessoas estão querendo desmistificar a maternidade arco-íris e sentiu falta de ver coisas reais?”

É. Vou tentar explicar: mulherada sofre tanto com ou sem maternidade porque são perfeccionistas. Estou cansada dessa atmosfera (que envolve e não envolve mães) de empreendedores, de pessoas saudáveis, cultas, inteligentes, que comem orgânicos, que tem TOC, mania de organização e limpeza, que são ativistas de tudo, que fazem coaching, que querem testar a porra das receitas do Catraca Livre ao invés de ir comprar a merda da comida que está fazendo sucesso (“Aprenda a fazer paleta mexicana” “Faça sua própria Nutella” “Faça o café do Starbucks em casa”), que assistem Netflix porque não tem nada passando nos 19420393 canais de tv, que discutem a geração X, Y, Z, que são PT ou PSDB. Me cansa. 

Eu comecei a seguir Instagrams de organização, decoração e donas de casa, para ver se aflorava esse lado em mim. A verdade é que eu quero que se dane, que se dane se minha casa tem copos de requeijão e vive uma zona. Não estou nem aí se minha casa não é um primor de decoração, sempre preferi gastar meu dinheiro com outra coisa. Com vodka e sorvete, por exemplo. 

Uma vez, antes de casar, fui a um encontro de conhecidos do meu futuro marido, e todos diziam como suas esposas passavam camisas, sabiam cozinhar e tinham bundas empinadas. Eu olhei pro Felipe e disse: “Não espere nada de mim, eu sou uma entertainer. Posso sapatear, mas nunca vou passar camisa”. 

Eu tenho um amigo, que nos últimos anos virou mais amigo virtual que real, que conheci nos tempos de dança. Atualmente ele trabalha com teatro burlesco e outras artes relacionadas. Eu acho aquilo o máximo. Ele faz uma coisa que gosta e que aparentemente não tem uma causa. A causa é diversão. Ele não tem compromisso com o certinho, com o esteticamente aceitável, com o bonitinho.  Quando ele posta algo, a imagem nem sempre me é confortável, mas é sempre interessante. É diferente. Aí sabe o que fazem? Vivem denunciando o perfil dele no Facebook, simplesmente porque as pessoas não sabem lidar com o que sai da caretice.

Somos caretas. Somos caretas pra caralho. 

Tenho uma amiga que acha que parou de amamentar mas diz que ainda amamenta para não ter que ouvir o blá blá blá sobre os benefícios da amamentação. 

Tenho uma amiga que ouviu dos amigos que ela não namora porque não se valoriza. 

Tenho um amigo que está desempregado mas tem que fingir que está fazendo alguma coisa porque não perdoamos pessoas que não são grandes líderes.

Tenho uma amiga que não posta foto de corpo inteiro porque acha que está gorda.

Tenho uma amiga que o filho de quase 3 anos ainda usa chupeta mas faz ele tirar nas fotos para não ter que ouvir que essa idade não usa mais chupeta.

Tenho um amigo que não quer casar mas enrola a namorada porque um homem deve constituir família.

Somos caretas. Somos caretas pra caralho. Não estamos melhorando. Estamos apenas nadando em nossa própria caretice achando que estamos evoluindo.

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