O que tem para jantar?

A cena na cozinha:

Tenho fazer um peito de frango saudável e rápido de panela que minha mãe faz. Coloco na panela. Tempero. Aguardo. Eles começam a queimar por fora enquanto ainda estão crus por dentro. Tento salvá-los e não consigo. Tiro-os da panela e picoto como Quentin Tarantino picotaria seu pior inimigo. Jogo em outra panela e “taca-lhe” azeite. Sujo o chão da cozinha e o fogão que a diarista limpou hoje. Saio jogando tira gordura em tudo enquanto esfrego. Bufo. Me queimo. A criança ainda não dormiu e já passa do horário. São quase 10 da noite e eu estou com fome. Foda-se tudo, cato a criança e coloco pra dormir sob protestos. Janto frango queimado e ruim cortado sem nenhuma simetria com milho em lata. Odeio todo mundo. Odeio fazer o jantar!

Na verdade há tempos esse é um dos grandes dilemas da dona de casa: o que fazer pro almoço? O que fazer pro jantar? O que fazer pro almoço? O que fazer pro jantar? Consigo imaginar a mulher das cavernas pensando 3 opções de jantar com uma opção de frango, carne ou peixe porque ela não sabia o que o Sr. Homem das Cavernas ia caçar.

Esse ciclo infinito parece consumir grande parte dos nossos dias, ainda mais porque não se pode mais simplesmente cozinhar uma salsicha e comer com aquele macarrão cheio de glúten e carboidrato a noite. Se você pensa: vou fazer uma carne com salada. Tem que sair, pra comprar a salada. Lava a salada. Tempera a salada. Pensa na carne. Considera uma batata sauté. Lembra que não tem salsinha. Nunca tem salsinha porque quando tem, ela estraga.  Falar em estragado, a batata já criou raízes na geladeira. Nessas o humor já foi pro espaço.

Aí sempre tem um bacana: “se organiza que dá!”. Tenho vontade de dar na cara de quem fala “se organiza” com os cinco dedos bem abertos  como se organização fosse algo que vende no mercado. Brother, se organização fosse um dom de todos eu não teria metade dos problemas que tenho na vida assim como se paciência fosse uma droga injetável, eu já estaria sem veias e internada numa clínica de reabilitação. “Faz tudo no final de semana e congela”. Mas que caralha que eu vou passar meu domingo cozinhando pra depois comer comida velha. E mais: não é porque eu vou fazer no final de semana que ela vai ficar boa!

Aí tem gente que faz o cardápio fixo da semana. Isso é inimaginável pra mim porque exige MUITA organização e espaço no freezer. E se na terça-feira eu não quiser comer peixe com brócolis? E se na quinta eu resolver pedir comida árabe?

Eu odeio cozinhar. Odeio porque não sei e não sei porque odeio. Odeio porque não sei e não sei porque odeio. Minha mãe também odeia, mas ela cozinha bem.

A minha cozinha sabe disso e agora me odeia. Uma vez vi um programa do Gordon Ramsay em que ele fazia um beef Wellington e enrolava a massa no papel filme. O papel filme dele fluia, ele comandava aquele papel filme. Era lindo e muito natural. Pensa se eu consigo fazer o mesmo com o meu papel filme. Pra começar não consigo nem achar a ponta. Depois ele enrola todo e se joga no chão. Gruda no meu dedo. Gruda na tesoura. Sai todo torto e grudado. Minhas panelas queimam minha comida porque me odeiam. Meu instinto me sabota “acho que isso é em fogo baixo”. “NÃO, É ALTO!”, diz a receita. Meu arroz faz o que ele quer. Assim, sem mais nem menos. Às vezes sai salgado, às vezes queima, às vezes fica bom.

Ta aí uma resolução de ano novo: fazer as pazes com a cozinha. A saúde agradeceria, a família e os vizinhos que convivem com o cheiro de comida ruim e o bate panela também!

lovenot

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