Um relato sobre o aborto espontâneo 

Esse post está no meu “banco de pautas” desde que o blog existe, mas nunca tive muito ímpeto em escrever sobre, simplesmente porque não acho que existam palavras suficientes para amenizar a dor do aborto espontâneo*. Não a dor física. A dor emocional.

A verdade é que não há como lidar. O aborto espontâneo, como a própria palavra (muito feia por sinal) diz, acontece “sem querer”, geralmente porque a natureza detectou alguma má formação no embrião ou no feto. 

Não é culpa da mãe. Não é culpa de ninguém. É apenas um momento infeliz que muitas de nós têm que passar. Eu passei por essa experiência e por isso posso relatar um pouco do que é. Por maior que seja o seu poder de empatia, você só sabe o que realmente é quando passa por isso. 

Primeiro, eu acho que devíamos mudar a expressão “perdeu o bebê” para, sei lá, “a gravidez não progrediu” como dizem os médicos ou “a natureza achou melhor não”. Porque toda vez que diziam que eu tinha perdido o bebê parecia que eu devia ter feito algo para “achá-lo”. É uma expressão muito dolorosa, ao menos para mim. Como falei acima, é uma atitude quase impensada tentarmos consolar a pessoa que “perdeu o bebê” contando casos de conhecidas que passaram pela mesma coisa mas tiveram algum “final feliz”. Eu mesma sou desses casos. Mas na época algumas coisas chegam até a assustar. “Conheço uma pessoa que teve 4 abortos antes de engravidar, e hoje em dia tem 3 filhos”. Que bom para ela, mas eu não quero ter QUATRO abortos antes de engravidar, meu Deus!” Na realidade você não queria nem estar passando por esse! “A natureza sabe o que faz, é muito comum, às vezes não seria um bebê saudável”. Eu sabia de tudo isso, mas por que a MINHA natureza tinha que ter cometido algum erro? Dadas as proporções, é como você perder um ente querido e alguém tentar de consolar dizendo “Pessoas morrem todos os dias” e completar com inúmeros casos de pessoas que perderam entes queridos.

De repente, parece que TODO MUNDO ao seu redor decidiu engravidar. E está todo mundo bem, menos você. Há uma revolta inicial, e essa revolta deve ser respeitada e sentida. São sonhos frustrados. São expectativas reduzidas a nada. É estar completa, multiplicada e de repente parecer que só sobrou metade de você. Bate até uma “vergonha” de ter que contar para todo mundo que você “perdeu o bebê” e ter que encarar olhares piedosos. No meu caso, toda a situação veio seguida de uma turbulência: por motivos pessoais, minha médica quis investigar o aborto, e tudo isso esticou a dor. 

Há algum tempo eu entendi porque passei por tudo aquilo. Eu amadureci, era algo que eu precisava passar antes de ser mãe. Não estou dizendo que isso fez de mim uma “mãe melhor”, primeiro porque não acredito nisso e segundo porque estaria dizendo que as mães que engravidam acidentalmente não são boas mães e isso está longe de ser verdade. Mas PARA MIM todo o pré processo fez o pós processo ser mais leve. Não fácil, mas leve. Entendem? Fez a minha felicidade ser ainda maior e mais curtida quando aconteceu. Quando estava a beira do colapso do cansaço nos primeiros meses, lembrava como eu quis aquilo, como foi difícil. 

Novamente, era algo que EU precisava passar. Para os que têm pessoas queridas passando por essa situação: não dêem espaço, preencham o espaço. Mostrem o amor. Façam barulho. Chorem juntos. Escutem. Em hipótese alguma subestimem aquela dor. Para os estão passando por essa situação: passa, melhora e o tempo é nosso melhor amigo. E acreditem: nem em sonho vocês podem imaginar o que está reservado. Não se sintam MENOS mães. Ninguém é menos mãe se já vivenciou um mínimo desse sentimento. 

Por fim, um dia ouvi algo interessante, quase espírita, apesar de não saber se foi do espiritismo que surgiu essa teoria. Às vezes algumas almas antigas só precisam de mais um tempo de vida para completarem seu ciclo e então terem seu descanso eterno. Essas são as almas que vem e logo vão e suas mães são seres muito especiais que foram escolhidas apenas para essa breve passagem. 

*Quando digo a dor do aborto espontâneo não estou dizendo que não há dor em qualquer tipo de aborto que seja, mas que estou falando sobre esse caso específico.it

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Vale a pena ser mãe?

Quando se trata de expor a maternidade real eu sou a primeira a falar sobre o assunto. Muita gente se diverte comigo nas redes sociais por isso. É claro que se trata de uma experiência totalmente pessoal e há momentos em que amamos ser mãe e outro momentos que só queríamos parar o mundo e descer. Então, na realidade eu queria fazer esse texto há tempos, e acho que os “desafios” da última semana me deram o empurrãozinho que faltava.

Você gosta de ser mãe?

Bicho, eu transformei meu blog pessoal em um blog sobre maternidade, então o que você acha? Piadas a parte, eu amo ser mãe, com todas a suas mazelas e reclamações. É uma transformação profunda e por diversos momentos quando meu primeiro filho nasceu eu pensei estar com algum problema. Sofri com o baby blues nos dois pós-partos. Nesse ponto o blog foi essencial, pois coloquei aqui muito do que estava passando.

Ser mãe é a viagem mais louca da minha vida, com todos esses clichês, e ainda assim eu não consigo imaginar nenhum outro cenário em que minha vida seria melhor, sem meus filhos. Na realidade às vezes me pego pensando como vivi tanto tempo sem eles e o que eu fazia da minha vida. É como vi o Johnny Depp (que amamos!) falando há anos, antes mesmo de ser mãe: é como se tudo estivesse embaçado e de repente tudo se tornasse nítido e colorido. É disso que se trata a vida.

É a renovação da família. Já não tenho avós há alguns anos, vejo meus pais envelhecendo, meu marido e eu envelhecendo, nossos irmão envelhecendo, os cachorros envelhecendo. Então vem a vida e se renova. E traz toda uma onda de renovação para aquela família. Em meio a tantos problemas de adulto, há leveza.

De repente você quer se tornar uma pessoa melhor, quer comer melhor, evoluir e por incrível que pareça e por mais difícil que seja, tudo começa a fluir melhor. Você faz acontecer.

No fim do dia é como eu sempre falo: sabe aquela apresentação motivacional de PowerPoint que diz:

“Se hoje tivesse sido o último dia da sua vida, teria valido a pena?”

Posso dizer, antes de ter filhos seriam poucos os dias que teriam valido a pena. Desde que meu primeiro filho nasceu, com toda a loucura e complexidade que envolve ser mãe, SIM, todos os dias valem a pena. Todas as noites eu fecho os olhos e penso: “Quero acordar amanhã, mas se eu não acordar, teria sido um bom último dia?” E a resposta sempre é: sim, teria.

P.S: Eu não sou do tipo que acha que toda mulher tem que ser mãe, que mulher nasceu para isso e que sua vida está perdida se você não os tiver. Acho que é possível ter uma vida completamente plena e feliz sem filhos. É PERFIL. Comigo foi assim e torço pela paz de espírito das mulheres que estão passando por dificuldades nessa trajetória.

 

Carta para as visitas

Querida visita,

Estou muito feliz que você queira conhecer o meu bebê, entregar um presentinho e me ver mãe. É realmente a transformação mais incrível que você pode presenciar. Mas veja, nem tudo tem sido tão fácil para mim.

Realmente, ter um bebê é algo especial. Parir, seja de uma forma ou de outra, exige um período de recuperação e, na realidade, tenho pouco tempo para me recuperar. Esse novo universo me consome por inteiro .

Basicamente meu sono é picado e meus dias e noites se misturam em um ciclo sem fim de mamadas, trocas de fraldas, banhos, cólicas, preocupações e aprendizados e mesmo que eu já tenha passado por isso antes, devo lembrá-lo que esse é um novo bebê e portanto uma nova situação.

Ainda assim, pode me fazer bem ver alguém diferente, já que não temos saído muito. Nesse caso peço que lembre-se de todo o processo que estou passando. Posso não estar na minha melhor forma, e minhas olheiras enormes fazem parte dessa nova vida. Por favor tente não me lembrar disso. Minha casa pode estar um pouco bagunçada e não estranhe se água for a única coisa que eu te oferecer. Também não me julgue se eu te deixar mais de uma vez para amamentar. Esse processo exige certa atenção principalmente no começo. E por favor, não julgue se meu bebê é bonzinho ou não. Às vezes ele pode estar num mau dia. Lembre-se: estamos nos conhecendo.

Falando em “maus dias”, por favor entenda caso eu desmarque a sua visita mais de uma vez, ou até mesmo que demore para marcá-la. Eu sei, querida visita, que você trabalha e às vezes quer vir depois do trabalho. Infelizmente esse não é um bom horário para nós. A noite, tanto eu quanto meu bebê já estamos bem cansados e acredite: 8 horas da noite já é bem tarde para nós. Ainda sobre horários, sei que tem seus compromissos e o trânsito nem sempre colabora, mas tente não se atrasar. Acontece que, enquanto te esperava, poderia estar dormindo.

Não estamos mais na maternidade, mas é como se estivéssemos. É preciso respeitar horários e certos princípios que certamente sua educação oferece.

No mais, cara visita, sua presença é bem-vinda, se não agora, em outro momento. Preciso de um abraço, de ouvir as notícias do mundo lá fora, de escutar novamente que meu bebê é lindo.

Espero que entenda que não “fiquei chata” depois que virei mãe. Em breve estarei de volta e quando vier aqui poderemos conversar até de madrugada ou até quando o vinho acabar.

Um abraço,

Sua amiga que acabou de ser mãe

Sobre o primeiro mês com o bebê

Em primeiro lugar preciso pedir desculpas pelo meu sumiço! No dia 7 de novembro meu caçula Bruno veio ao mundo e tendo um filho de 2 anos e meio para cuidar, podem imaginar como as coisas ficaram atribuladas por aqui, mesmo com toda ajuda. Mas, vamos tentar voltar aos poucos?

Como já disse, primeiro mês com bebê novo em casa pode ser atribulado.Uma nova pessoa na casa, a mãe em recuperação independente do tipo do parto, noites em claro, hormônios em ebulição. Você provavelmente já sabe sobre a privação do sono, os horários malucos, o banho corrido, as roupas sujas de leite e o cabelo preso de qualquer jeito. Caso seja o seu primeiro filho, posso adiantar algumas coisas que você provavelmente vai passar ou podem acontecer nesse primeiro mês:

1. Você vai sentir sono. Muito sono.

Não é exagero. A vida a cada 3 horas (com sorte!) realmente é cansativa. Na primeira semana ainda há alguma disposição, na segunda ela começar a sumir e daí por diante não há creme que dê jeito nas suas olheiras. A notícia boa é: passa. Não sei afirmar em quando tempo, mas passa!

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2. Amamentar dá trabalho

Todo mundo diz que amamentar não é fácil e não é mesmo. Eu tive a sorte de não ter problemas com meus dois filhos, ainda assim há a dor inicial, a dificuldade do bebê que não sabe bem o que fazer e consequentemente a sua dúvida sobre estar fazendo certo. Além do pediatra, há inúmeros grupos nas redes sociais que ajudam durante essa fase difícil (Mamare, GVA, Amigas do Peito são alguns deles). Alguns planos de saúde e maternidades também oferecem auxílio como parte de seu pacote de serviços. Conte com toda ajuda que puder, se precisar!

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3. Nóia com peso

O seu e do bebê! Você vai ter vontade de pesar seu bebê todos os dias para confirmar que está mamando bem e ganhando peso. Cada ida ao pediatra é uma ansiedade sem fim, como uma preparação para o ENEM ou um teste importante que você TEM que ir bem. E se você vai bem, a nóia só dá folga por alguns dias e depois volta com força total até a próxima consulta.  Ao mesmo tempo talvez você não volte a forma tão rápido quanto imaginou (natural, afinal você está no primeiro de recuperação) e também comece a se preocupar com seu peso.

4. O pai perdido

Claro que há exceções, mas é possível que o pai da criança fique um tanto quanto confuso procurando seu lugar ao sol em meio a essa nova configuração de família. Pode ser que ele se torne invisível, nervoso ou tão colaborativo a ponto de irritar. Algumas brigas podem surgir, afinal os dois estão cansados e quase sempre sem saber o que fazer. Isso também PASSA.

5. Choro sem motivo

Novamente: o SEU e do bebê. Se você já leu um pouco sobre o período pós-parto, sabe que existe o chamado “baby blues” em que a mãe pode ter momentos melancólicos, com choro sem motivo e emoções à flor da pele. É normal, acontece também por conta da brusca queda hormonal após a gravidez e deve passar. Claro, é bom sempre informar o médico sobre as mudanças que estão ocorrendo. Sobre o choro do bebê, é normal ficar nervosa. De repente tem um ser humano ali que CHORA. Sua única forma de comunicação é essa e obviamente você pode se desesperar em alguns momentos quando isso acontece.

6. O pediatra, seu melhor amigo

Quando meu primeiro filho nasceu eu ainda não conhecia a pediatra que havia marcado a consulta (apesar de bem indicada), ou seja, menos de sete dias depois do parto eu lembro de ligar pedindo para adiantar a consulta porque meu filho havia regurgitado pelo nariz 2 vezes naquele dia. Ela me ligou e me tranquilizou, mas eu sei (e ela também) quantos whatsapps e ligações foram naquele primeiro mês!

7. Cólicas, cocô e arroto

Sua vida passa a ser uma série de comemorações em torno de eventos escatológicos. “Fez cocô!!! Graças a Deus saiu o cocô!!!” ou “Viva, arrotou! Posso colocar no berço e voltar a dormir!”

8. Todas as nóias do mundo

“Está respirando?” “Será que deito de lado ou de costas?” “Cadê o álcool gel?” “Será que está com frio ou é calor?” “MEU DEUS DO CÉU O QUE  É MORTE SÚBITA?” “Será que é cólica?” “Devo colocar ele no sol?”.

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9. Solidão

Mesmo com todas as visitas do mundo ou com toda a ajuda possível, é normal sentir uma espécie de solidão. As madrugadas são longas e boa parte do tempo você passa com um ser que não interage. Acima de tudo, a solidão faz parte de um processo que você tem que passar, vejam só, sozinha! É uma nova pessoa que está surgindo, a pessoa “mãe”, e por isso você experimenta sentimentos bons e ruins que nem sempre sabe externar. Acredite: todas passam por isso e eu acho que é aí que nasce o instinto materno, na solidão.

 

O seu bebê não te julga

Uma vez uma outra amiga me falou uma frase que mudou a forma como eu exercia a maternidade: independente de quem te julga – se você mesma, se os familiares, os amigos, os desconhecidos, a mídia ou o mundo – saiba que O SEU BEBÊ NÃO TE JULGA.

O seu bebê não te julga porque você queria parto normal e teve cesárea.

O seu bebê não te julga porque você não o que fazer com aquele ser totalmente dependente de você. Ele não acha que você deve saber o que fazer porque virou mãe, que essa é a maior dádiva do mundo e portanto você deve se sentir BEM e SEGURA.

O seu bebê não te julga porque você checa se ele está respirando enquanto dorme, se confirma a cada 10 minutos se ele está com frio ou calor, se coloca a babá eletrônica no volume máximo enquanto está acordada e ele dorme no seu apartamento de 50m.

O seu bebê não te julga quando você está sofrendo pelos desafios da amamentação, pelo resguardo, a oscilação hormonal, o corpo pós-parto ou se às vezes você chora sem motivo.

O seu bebê não te julga porque você ainda não entendeu muito bem a nova configuração de família: seu cônjuge o pai, sua sogra e sua mãe as avós, os irmãos como tios, seu pai e sogro como avôs e principalmente, você como MÃE.

O seu bebê não te julga porque você não sentiu uma conexão imediata, afinal, vocês se conheciam muito bem enquanto ele estava dentro de você, mas agora ele também deve passar por uma nova configuração de VIDA, de AMBIENTE e o VÍNCULO é algo que vem com o tempo.

O seu bebê não te julga porque o instinto materno é simplesmente um sentimento que te impede de ir embora e largar tudo em momentos desesperadores, mas ele não te ensina a amamentar, a dar banho ou identificar choros.

O seu bebê não te julga se você não está “FELIZ” o tempo todo. É totalmente normal em alguns momentos se sentir insatisfeita e entediada com a nova vida que se apresenta. O preenchimento de vida e amor que os filhos trazem e todos falam EXISTE, mas ele surge com o tempo, com a balança que vai se ajustando com o passar dos dias.

O seu bebê não te julga se você não está na sua melhor forma 20 dias após o parto, se não lavou o cabelo hoje e se não faz a unha há 3 semanas.

O seu bebê não te julga se às vezes você fica o encarando por horas a fio e sentindo cada “centímetro” do cheiro dele.

O seu bebê não te julga. Você está ali e é isso que importa.

2013-06-04 15.56.29-2